Há cães que têm alergia à picada das pulgas

As pulgas são ectoparasitas de cães e gatos, muito prevalentes em Portugal. A reação alérgica à picada da pulga é uma das doenças alérgicas mais comuns e representa uma das principais causas de prurido em cães e gatos.

Além de provocarem alterações dermatológicas associadas à sua picada, por vezes graves, as pulgas são potenciais desencadeadoras de anemia pela ingestão de sangue dos seus hospedeiros e vetores de outras doenças severas como as hemoplasmoses e de ténias aos nossos animais de companhia, que poderão ser depois transmitidas ao Homem.

Após ingerir o sangue do hospedeiro, uma fêmea de pulga adulta pode colocar até 50 ovos por dia, que cairão ao solo com o subsequente nascimento das larvas.

As larvas apresentam fotofobia, pelo que frequentemente se deslocarão para as zonas mais profundas de carpetes, tapetes e por baixo do mobiliário, onde passarão a pupas, envoltas por um casulo protetor.

É fundamental entender que apesar do ciclo de vida das pulgas se poder completar em apenas 2 semanas, o casulo pode proteger as pupas por um período superior a 6 meses, até que a identificação de um potencial hospedeiro e de melhores condições ambientais permita a saída de novas pulgas adultas.

Sinais clínicos

Alguns animais não apresentam reação alérgica à picada das pulgas, podendo ter sinais clínicos menos exuberantes, como prurido discreto e raras crostas ou zonas de pelo menos denso.

Os cães com dermatite alérgica à picada da pulga, tendencialmente exibirão prurido intenso na região lombo-sagrada, base da cauda e região caudal das coxas, com lesões que poderão ser extensas, associadas à inflamação pela reação alérgica e, em grande parte, ao traumatismo autoinfligido pelos animais ao se coçarem.

São muito comuns as situações em que apresentarão infeções superficiais da pele (pioderma de superfície) associados a maior ou menor grau de ausência de pelo (alopécia).

Os gatos que apresentam dermatite por hipersensibilidade à picada da pulga podem apresentar quadros clínicos com apresentações distintas. As mais comuns serão prurido intenso na região do crânio e pescoço com possíveis lacerações autoinfligidas, alopécia autoinduzida da região abdominal ventral e dermatite miliar (lesões crostosas multifocais maioritariamente no dorso, região lombar e cauda).

A higienização frequente das camas dos animais e a aspiração de tapetes e carpetes, podem auxiliar a diminuir a carga parasitária no ambiente.

Tratamento

Para um tratamento eficaz de uma infestação por pulgas, será importante conciliar produtos que eliminem as pulgas adultas dos nossos animais de companhia, podendo ser auxiliados por produtos de controlo juvenil que impossibilitarão as pulgas adultas de terem descendência viável, com produtos que desinfestem o ambiente das larvas e pupas (que representam a maior proporção da população total de pulgas).

Outras medidas, como a higienização frequente das camas dos animais e a aspiração de tapetes e carpetes, poderão auxiliar a diminuir a carga parasitária no ambiente.

Animais que exibam lesões secundárias à dermatite alérgica à picada da pulga poderão beneficiar de tratamentos médicos que auxiliem no controlo imediato do prurido e de tratamentos tópicos de eventuais lesões cutâneas como escoriações e infeções superficiais.

Prevenção

O controlo das pulgas deverá prevenir a infestação dos animais de companhia e seus locais de residência.

O melhor protocolo de prevenção deverá ser avaliado entre o tutor e o Médico Veterinário para se obter a forma mais segura de prevenir infestações e consequente risco de doença cutânea severa e de transmissão de outras doenças.

Apesar de maior prevalência em épocas com temperaturas mais amenas, as infestações por pulgas são cada vez mais prevalentes ao longo de todo o ano, mesmo em animais sem acesso ao exterior, pelo que a prevenção de pulgas poderá ser necessária de forma contínua.

As causas mais comuns de falha em protocolos de prevenção robustos são:
1. Não tratar em simultâneo todos os animais coabitantes;
2. Não aplicar os tratamentos de forma correta ou fazê-lo em intervalos incorretos;
3. Não ter em consideração que banhos poderão diminuir a eficácia de produtos tópicos;
4. Exposição intermitente a outros animais ou ambientes infestados.

Por: João Caiano, Médico Veterinário
AniCura Atlântico Hospital Veterinário
www.anicura.pt

Referências bibliográficas:
Patel, A. & Forsythe, P. (2008). Small Animal Dermatology. Saunders Elsevier;
Overgaauw P. et al. (2022). ESCCAP Control of Ectoparasites in Dogs and Cats. ESCCAP;
Griffeth, G. (2012). Flea control in the 21st century. In Abstracts European Veterinary Conference Voorjaarsdagen 2012.
Stefan, H. (2011). Clinical characteristics and causes of pruritus in cats: a multicenter study on feline hypersensitivity-associated dermatoses. In Zurich Open Repository and Archive. University of Zurich.

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